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Coesão e Coerência na Língua Portuguesa

Leia a seguir como Graciliano Ramos fala do processo de escrever:

"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa seja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso: a palavra foi feita para dizer?"

Escrever não é apenas colocar palavras no papel, não é? Precisamos trabalhar muito, quando queremos escrever. Todo texto é um produto, mas sua elaboração é, antes de tudo, um processo que relaciona, basicamente, duas ordens de fatores:

1) finalidade, leitor previsto, assunto e tipo de texto;

2) a construção de uma unidade de significação.

Imagine que você vai escrever uma carta (ou um e-mail) para um jornal comentando uma notícia sobre os alimentos transgênicos Evidentemente, você leva em consideração:

# a finalidade de sua carta (participar do debate, dando sua opinião);
# o que quer comentar (alimentação e transgênicos);
# para quem está escrevendo (jornal);
# o tipo de texto: a carta ou e-mail.

Em função disso tudo, você dá sua opinião, usando elementos da carta e escolhendo argumentos que sustentem suas idéias. Assim, para escrever sua carta, você - como autor - precisa elaborar um texto coerente não só com suas idéias, mas também coerente em relação ao seu objetivo, ao leitor que pretende atingir, ao gênero textual que está desenvolvendo.

Vamos pensar um pouco mais a esse respeito...

Coesão e coerência

Imagine a seguinte situação: na grande decisão de um campeonato, o técnico de um dos times declarou aos jornalistas:

"Vamos respeitar o adversário, mas, agora, nosso time está coeso".

Agora, numa outra situação, a namorada diz para o namorado:

"Não adianta. Não vou mais perdoar você. Quero que tenha atitudes coerentes."

Na primeira situação, o técnico enfatizou o fato de seu time estar coeso, como uma qualidade importante para ganharem o jogo. "Coeso" significa "unido", "intimamente ligado", "harmônico".

Na segunda situação, a namorada cobra atitudes coerentes do namorado. "Coerência" significa "harmonia", "conexão", "lógica".

A vaguidão específica
Você sabia que "coesão" e "coerência" são as duas propriedades fundamentais para que exista um texto? Sem esses elementos, não podemos dizer que existe texto. Quando muito, há um amontoado desconexo de palavras colocadas lado a lado. Bem, vamos a mais uma reflexão? Desta vez, leia o trecho de uma crônica de Millôr Fernandes.

?As mulheres têm uma maneira de falar que eu chamo de vago-específica? - Richard Gehman

?Maria, ponha isso lá fora em qualquer parte."
?Junto com as outras?"
?Não ponha junto com as outras, não. Senão pode vir alguém e querer fazer qualquer coisa com elas. Ponha no lugar do outro dia.";
?Sim senhora. Olha, o homem está aí."
?Aquele de quando choveu?"
?Não o que a senhora foi lá e falou com ele no domingo."
?Que é que você disse a ele?"
?Eu disse para ele continuar."
?Ele já começou?"
?Acho que já. Eu disse que podia principiar por onde quisesse."
(...)

(Millôr Fernandes. "Trinta anos de mim mesmo". São Paulo: Abril Cultural, 1973)

Veja como o humorista faz sua sátira, a partir de duas idéias básicas: "as mulheres falam demais" e "somente as mulheres se entendem".

Comece a analisar pelo título a ironia do autor: "A vaguidão específica" (como algo pode ser vago e específico, ao mesmo tempo? Só as mulheres, diria Millôr e os que pensam como ele...). Para confirmar suas idéias, ele busca uma "autoridade" para fazer a citação: Richard Gehman (quem seria? Um estrangeiro, pelo nome. Novamente, o humorista brinca com uma idéia pronta: sendo "alguém de fora" deve ter muito a nos ensinar...).

Quem participa da história narrada? Duas mulheres. São elas patroa e empregada? Mãe e filha? Não sabemos. Qual é o assunto de que falam as duas mulheres? Nós, leitores, não sabemos, mas as duas personagens sabem, não é mesmo?

A que se referem as palavras e trechos: "isso", "outras", "alguém", "qualquer coisa", "lugar do outro dia", "o homem", "Aquele", "o que a senhora foi lá e falou com ele no domingo", "continuar", "começou"? Os leitores não sabem, mas as mulheres sim e como as duas sabem do que estão falando, a "costura" do texto vai sendo feito de forma coerente e coesa.

Você viu que Millôr Fernandes, intencionalmente, quis brincar com um preconceito social a respeito da mulher e seu jeito de falar, considerado excessivo. Assim, para entendermos o texto, como coerente e coeso, é preciso levar em conta o fato do autor ser um humorista e seu texto trazer essa marca da "surpresa" ou do "olhar sobre outro ângulo" - como numa piada.

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