O que é a mente?
A tentativa de entender o mundo esbarra, logo de saída, num
obstáculo formidável: não sabemos como existe nem como
funciona nossa principal ferramenta para lidar com o
Universo – a mente. Graças a ela, dispomos de consciência,
noção de individualidade e capacidades variadas, como
aprender, avaliar, adorar, detestar e opinar. Até sabemos
detectar os “sintomas” biológicos de um estado de espírito,
como o amor e o prazer. Podemos também fazer o caminho
inverso, ao fornecer estímulos químicos e detectar
resultados comportamentais. Mas a ponte entre um lado e
outro permanece um mistério. A mente é mais do que a
atividade elétrica e química do cérebro. “Na cardiologia,
por exemplo, pode-se partir de uma única célula, agregar as
outras peças e chegar ao sistema completo”, diz o psiquiatra
Luiz Alberto Hetem, da Faculdade de Medicina da USP. “No
cérebro, a coisa se perde em algum momento. Não há um
contínuo que vá da célula até o sistema em funcionamento.”
Por que temos tão pouco genes?
Na década passada, biólogos estimavam que o ser humano tinha
100 mil genes. Na época da publicação da versão final do
genoma humano, há 2 anos, o número já havia caído para 32
mil. Finalmente, em outubro passado, após 15 anos de
trabalho, o Consórcio Internacional de Seqüenciamento do
Genoma Humano apresentou seu último cálculo, indicando que
temos 25 mil genes, no máximo. Número nada impressionante,
se levarmos em conta que a Arabidopsis thaliana, planta da
família da mostarda, tem 26 mil. “Nós não parecemos muito
impressionantes nessa competição”, diz Francis Collins,
diretor do Instituto Nacional de Pesquisa do Genoma Humano,
dos EUA. Uma primeira conclusão, óbvia, é que não é o
tamanho do genoma que importa – e sim, o resultado final que
ele proporciona. Uma segunda conclusão, inevitável, é que
sabemos pouquíssimo sobre como os genes funcionam.
Por que sonhamos?
Sigmund Freud deu ao mundo, em 1900, a idéia de que nossos
sonhos teriam significados ocultos. Eles seriam uma
tentativa do nosso inconsciente de realizar desejos, muitos
dos quais não admitimos conscientemente. O conceito
permanece difundido até hoje, mas neurologistas ainda
procuram uma justificativa para os sonhos. Se eles são
indispensáveis, por que orcas e golfinhos, mamíferos com
cérebro desenvolvido, passam seu primeiro mês de vida sem
dormir? Aliás, sonhos precisam de explicação biológica? Os
psiquiatras Robert McCarley e Allan Hobson, da Universidade
Harvard, nos EUA, quase tiraram a graça da história, em
1977. Para eles, o sonho seria apenas conseqüência da
atividade elétrica do cérebro no sono, “sacudindo” memórias
e pensamentos. A teoria ganhou opositores de todos os lados:
psicólogos freudianos dizem que há sonhos altamente
coerentes e alguns evolucionistas afirmam que sonhar é uma
ótima forma de simular situações sem se expor a riscos.
Como funciona a acupuntura?
Meridianos energéticos, balanceamento do yin e yang, reforço
do chi... Fala sério: do ponto de vista da medicina e da
biologia, as explicações tradicionais sobre a acupuntura não
têm sentido nenhum. Mesmo assim, essa prática, cujo registro
mais antigo vem do ano 90 a.C., difundiu-se a partir da
China para o Ocidente. Uma possível explicação para a
popularidade da técnica é o efeito placebo, que pode mesmo
reduzir dores. Essa justificativa começou a balançar em
1999, quando a Universidade de Heildelberg, na Alemanha, fez
uma experiência com um grupo de controle, que usou agulhas
retráteis (os pacientes sentiam a picada, mas a agulha não
penetrava na pele). O grupo que levou agulhadas verdadeiras
contra tendinite registrou índice de melhora muito maior do
que o das agulhadas falsas, beneficiado apenas por efeito
placebo. Ou seja, a coisa funciona. Mas a pergunta persiste:
como?
Por que a mulher tem um órgão destinado só ao prazer?
Até os anos 70, acreditava-se que a fêmea humana era a única
a ter clitóris e a atingir um clímax na relação sexual.
Hoje, sabemos que as fêmeas de outros primatas também têm
essas características. Mesmo assim, parte dos cientistas
acha difícil encontrar o lugar do clitóris na evolução. Por
que ele existe? Há quem defenda que o pequeno órgão surgiu
como um incentivo para que as fêmeas procurassem sexo e
aumentassem a prole. Alguns estudos mostram, porém, que
apenas o ato sexual convencional não é a melhor forma de
estimular o clitóris (as fêmeas de macacos bonobos, por
exemplo, procuram outras fêmeas quando querem esse tipo de
estímulo). O evolucionista Stephen Jay Gould abordou o
assunto no livro Viva o Brontossauro, de 1987. Ele afirmou
que o clitóris e o orgasmo feminino são acidentes da
evolução, com a mesma importância para a sobrevivência da
espécie que os mamilos masculinos: nenhuma.
Por que não usamos toda a capacidade do célebro?
Você já deve ter ouvido falar que o cérebro humano usa
apenas 10% de sua capacidade. Apesar de baseada em conceitos
verdadeiros, essa afirmação não passa de uma metáfora pobre.
A verdade é que 100% da massa encefálica trabalha
vigorosamente. O que não se explica é por que algumas
pessoas com cérebro aparentemente comum têm habilidades como
memória fotográfica ou eidética (capacidade de recordar
grande quantidade de imagens e dados, como um atlas
geográfico) e memória-calendário (capacidade de dizer em que
dia da semana caiu ou cairá uma data a séculos de
distância). Um dos primeiros exemplos bem documentados desse
tipo de prodígio foi Thomas Bethune, ou Blind Tom (“Tom
Cego” ) – um americano nascido em 1850, que além de cego era
escravo e autista. Também era capaz de escutar 20 páginas de
partitura uma só vez e tocá-las no piano. Aos 16 anos, Tom
havia memorizado cerca de 7 mil músicas.
Por que a maior parte do DNA não faz proteína?
Só cerca de 2% do DNA humano responde pela construção de
proteínas. Esses são os genes propriamente ditos. Até a
década passada, pensávamos que todo o DNA era formado por
genes, ou seja, que cada trecho era responsável pela
construção de uma proteína, e que esses trechos se sucediam
de forma ininterrupta. Estávamos errados. Os genes se
intercalam com longos trechos de DNA ainda sem função
conhecida. Esses trechos foram inicialmente chamados de junk
DNA, ou “DNA lixo”. Hoje, muitos pesquisadores acreditam ser
normal o acúmulo de restos genéticos que a evolução tornou
inúteis. Acontece que alguns desses trechos de DNA têm
comportamento ativo, ainda que inexplicável – por exemplo,
há os transpósons, ou genes saltadores, que mudam de lugar
aleatoriamente e podem causar mutações fatais.
O que explica a rotação das galáxias?
Galáxias apresentam um movimento de rotação que pressupõe
certa quantidade de matéria, para que a gravidade mantenha o
conjunto coeso. No final dos anos 70, porém, a astrônoma
Vera Rubin, do Instituto Carnegie, dos EUA, descobriu que a
quantidade de matéria visível nas galáxias não chegava nem
perto da necessária para produzir essa gravidade. Uma
explicação proposta foi a existência de uma esquisitíssima e
invisível “matéria escura”. Partículas chamadas neutrinos
contariam como “matéria escura”, mas seriam apenas parte
dela. O resto, especula-se sobre o que possa ser. Por mais
que os cientistas ajeitem a conta, faltam uns bons 30% de
matéria nas galáxias. Ou estão erradas nossas idéias sobre
como funcionam a gravitação e a aceleração em escala
galáctica. Essa é a proposta da teoria Mond, sigla em inglês
para dinâmica newtoniana modificada. Seu autor, o israelense
Mordechai Milgron, acha mais razoável esquecermos a tal
“matéria escura” e revermos as leis de Newton.
Pode existir uma conciência global?
Pesquisadores ao redor do mundo, coordenados pela
Universidade Princeton, acreditam ter constatado um fenômeno
incrível: a mente humana pode agir a distância sobre eventos
aleatórios. A idéia alucinada surgiu de uma rede de 65
computadores espalhados pelo globo, que geram seqüências
aleatórias de números desde 1998. Os pesquisadores afirmam
que as seqüências podem ser levemente empurradas para algum
padrão. Seria o mesmo que assistir a alguém jogar uma moeda
repetidamente e, com a força do pensamento, aumentar as
chances de cair coroa. O feito seria obtido pela força de
vontade coordenada de um grupo de pessoas ou durante eventos
que comovem grandes populações, como o tsunami na Ásia em
2004. Por isso o nome Projeto de Consciência Global.
Entendeu? Bem, os autores do estudo também não. Eles admitem
que sua pesquisa está “na margem da compreensão humana”. Ah,
sim, eles querem a ajuda de filósofos e poetas no projeto.
Como os animais pressentem coisas?
A quantidade surpreendentemente baixa de animais mortos no
tsunami que varreu a Ásia no final de 2004 inspirou novas
discussões sobre uma dúvida antiga: como funcionam os
sentidos dos bichos? Melhor que os nossos, certamente, já
que as pessoas não foram capazes de prever nem de fugir da
onda gigante. Quase sempre, é possível encontrar explicações
razoáveis para cada espécie, sem recorrer a nenhum
hipotético “sexto sentido”. Bigodes de gatos, por exemplo,
podem perceber ínfimos deslocamentos de ar ou um toque
equivalente à milésima parte do peso de um fio de cabelo.
Mesmo assim, os feitos dos animais obrigam os cientistas a
atualizar freqüentemente o que sabem. Foi a partir dos anos
90 que se admitiu que o olfato dos cães chega a ser 1 milhão
de vezes mais aguçado que o humano, embora a estrutura
cerebral responsável por esse sentido seja “apenas” 40 vezes
maior que a nossa.
Como funciona o efeito placebo?
O efeito placebo é conhecido há muito tempo, e respeitado a
ponto de ser incluído em testes clínicos, para comparação
com os efeitos dos medicamentos reais. Sabemos que ele se
relaciona com a expectativa do paciente: o organismo, ao
receber algo que a mente acredita ser remédio, é
“convencido” a reagir de acordo. O mecanismo, ainda
inexplicável, vem sendo estudado pelo médico Fabrizio
Benedetti, da Universidade de Turim, Itália. No ano passado,
ele monitorou a atividade cerebral de pacientes com mal de
Parkinson, enquanto dava a eles uma solução salina inócua,
que acreditavam ser remédio. Essa crença bastou para que os
cérebros dos pacientes reagissem, reduzindo sintomas da
doença, como tremores e rigidez. No sentido oposto,
pacientes que eram tratados com remédio verdadeiro, mas sem
o saber, continuavam manifestando os sintomas.
Por que a física tem constantes que são inconstantes?
A categoria “constante” – grandezas que não deveriam mudar
nunca – já foi bem maltratada pela ciência. No momento, quem
dá dor de cabeça aos físicos é a “constante da estrutura
fina”, também conhecida como alfa. Ela define como a matéria
interage com a força eletromagnética, incluindo a luz.
Graças à alfa, os cientistas sabem quais características
esperar da luz que viaja pelo espaço e atravessa nuvens
interestelares antes de chegar à Terra. Em 1997, surpresa: o
astrônomo John Webb captou luz com as qualidades erradas.
Isso pode significar que a constante alfa varia ao longo da
história do Universo. Amostras de material radioativo de 2
bilhões de anos na África reforçaram essa tese. Se a
constante alfa for mesmo variável, pode ser que a velocidade
da luz também seja – o que abre uma rachadura num dos
principais pilares da relatividade e da física atual.
Que raio são as partículas "oh-meu deus"?
Imagine a força devastadora de um elefante em disparada
concentrada numa formiga – que, periodicamente, derruba o
muro da sua casa. Desde 1991, cientistas já observaram pelo
menos 15 vezes um fenômeno tão estarrecedor quanto esse, mas
em escala muito maior: vindas do espaço, partículas
subatômicas chegam à Terra com energia cinética equivalente
à de uma bola de beisebol. O evento não se encaixa nas
teorias vigentes. Por sua capacidade de fazer qualquer
físico arrancar os cabelos, essas formigas atômicas do
espaço foram apelidadas de “partículas oh-meu-Deus”.
Provavelmente, são prótons viajando quase à velocidade da
luz. Elas criaram o chamado paradoxo GZK, porque violam os
limites definidos em 1966 pelos físicos Greisen, Zatsepin e
Kuzmin. Segundo o trio GZK, partículas tão energéticas só
poderiam vir de uma fonte relativamente próxima da Terra.
Por isso, os cientistas procuraram o ponto de onde elas
vieram. Não há nada por lá – pelo menos, nada visível para
nós.
Que Força desconhecida empurrou as sondas pioneer?
A história da sonda Pioneer 10 já seria empolgante, mesmo
que tudo tivesse ocorrido como previsto: a nave foi lançada
em 1972 e tornou-se o primeiro objeto criado pelo homem a
sair do sistema solar, em 1983. Manteve contato com a Terra
durante 25 anos, até perder-se no espaço profundo, em 1997.
A Pioneer 10 deixou um enigma: algum fator desconhecido
começou a reduzir sua velocidade e empurrá-la de volta para
o Sol, quando ela estava se aproximando de Plutão. A “força”
desconhecida era ínfima, mas, dadas as distâncias espaciais,
bastou para alterar a rota da nave em 400 mil km. O mesmo
ocorreu com a Pioneer 11. Tentou-se explicar a anomalia com
idéias prosaicas, como vazamentos de fluido nas naves ou
problemas na análise de dados. Outras propostas, no campo da
chamada “nova física”, foram bem mais ousadas, lembrando que
talvez devamos mudar nossas concepções de tempo, espaço e
gravidade em escalas cósmicas. Mas nenhuma explicação foi
conclusiva. O mistério continua.
O que acelera a expansão do universo?
Que o Universo se expande, já sabemos desde 1929, quando o
astrônomo norte-americano Edwin Hubble estudou o movimento
de galáxias distantes. Mas faz apenas 7 anos que o Hubble –
não o astrônomo, e sim o telescópio espacial batizado em sua
homenagem – provou que essa expansão está acelerando. Que
estranha força antigravidade seria essa? Alguns modelos
foram propostos, incluindo nomes aparentemente saídos de
Star Wars, como energia fantasma e quintáxion. Essas
alternativas receberam o nome genérico de “energia escura”,
pela dificuldade de detectá-la e por analogia com a também
indecifrável “matéria escura” (veja na pág. 64). A “energia
escura”, seja o que for, poderia contribuir com até 70% da
densidade necessária para que o Universo tenha a forma que
tem. Sem ela, o Universo – e nosso conhecimento sobre ele –
ficam com um imenso vazio a preencher.
De onde vem o metano de marte?
“Conclui-se que a experiência Viking LR detectou
microorganismos vivos no solo de Marte.” Essa afirmação para
lá de bombástica está logo na introdução de um artigo
científico escrito em 1997 pelo engenheiro ambiental Gilbert
Levin, que foi pesquisador da Nasa durante 2 décadas. Ele é
uma voz quase isolada na comunidade científica – a maior
parte dos acadêmicos ainda espera o surgimento de mais
evidências antes de comemorar a existência de vida no
planeta vermelho. Levin, porém, acredita ter essas provas
desde 1976, quando um dispositivo a bordo da sonda Viking
verificou a ocorrência de metano, gás que pode indicar
atividade biológica. O metano não duraria mais de 400 anos
na atmosfera marciana – ou o gás foi produzido em grandes
quantidades há poucos séculos ou é gerado continuamente até
hoje. Desde o final dos anos 90, outros testes confirmaram a
presença de metano (o último, em 2004, pela sonda européia
Mars Express Orbiter).
Como a homeopatia dá resultado?
A resposta mais fácil é o efeito placebo (veja na pág. 64).
A história ficou mais complicada desde que um grupo de
cientistas céticos, entre eles a farmacologista irlandesa
Madeleine Ennis, afirmou ter detectado efeitos da homeopatia
em glóbulos brancos, em laboratório, em 2001. Como se sabe,
glóbulos brancos não esperam nada do tratamento, ou seja,
não são suscetíveis ao efeito placebo. Madeleine afirmou que
sua pesquisa não comprovava o funcionamento da homeopatia –
apenas constatava um fenômeno inexplicado. Na homeopatia, a
substância original é diluída até milhões de vezes: o
produto final é quase água pura. A tese central do
tratamento, formulada pelo biólogo francês Jacques
Benveniste, é de que a água retém propriedades da substância
original, graças a uma “memória química” – o que não
significa nada para a ciência ortodoxa. “Somos incapazes de
explicar os dados e os reportamos para encorajar outros a
investigar o fenômeno”, disse Madeleine.
Por que tanta gente vê ovnis?
Os ufólogos entraram no novo milênio animadíssimos com a
publicação do livro Open Skies, Closed Minds (“Céus Abertos,
Mentes Fechadas”, inédito no Brasil). O autor, Nick Pope,
defende que pelo menos parte dos supostos avistamentos de
objetos voadores não identificados (ovnis) sobre a
Grã-Bretanha corresponde mesmo a artefatos de origem
desconhecida e tecnologia ultra-avançada. Pope virou
celebridade porque tem currículo diferente da maioria dos
ufólogos: é um alto funcionário do Ministério da Defesa
britânico. Apesar de nunca deixarem evidências
inquestionáveis, os “contatos imediatos” ocorrem no mundo
todo, com pessoas de todos os tipos – incluindo pilotos de
aeronaves militares e civis. Ufólogos americanos afirmam que
entre 15 milhões e 20 milhões de pessoas nos EUA dizem já
ter visto ovnis. Alucinações coletivas existem, mas, se é
esse o caso, ainda não há explicação razoável sobre por que
essa, especificamente, seria tão freqüente e difundida.